Estudo investiga como a losartana pode estimular o tecido adiposo marrom

Redação Diário Medicina
Por Redação Diário Medicina
5 Min de leitura

Um estudo financiado pelo National Institutes of Health (NIH) identificou uma possível relação entre a losartana, medicamento amplamente usado no controle da hipertensão, e a ativação do tecido adiposo marrom. Esse tipo de gordura é associado ao aumento do gasto energético e vem sendo investigado por pesquisadores interessados em metabolismo, obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares.

A pesquisa reuniu análises de grandes bases clínicas e experimentos realizados em camundongos. De acordo com o National Institutes of Health, dados envolvendo mais de 100 mil pacientes apontaram uma associação entre medicamentos da classe dos bloqueadores dos receptores de angiotensina, à qual pertence a losartana, e a atividade da gordura marrom.

Na etapa experimental, os camundongos que receberam losartana apresentaram aumento do gasto energético, do consumo de oxigênio e da produção de dióxido de carbono. Os achados sugerem que o medicamento pode influenciar processos relacionados ao metabolismo, mas ainda não demonstram que o mesmo efeito ocorra em seres humanos nem que possa ser convertido em uma nova indicação clínica.

O que é a gordura marrom

O tecido adiposo marrom é uma forma de gordura diferente do tecido adiposo branco, mais conhecido por armazenar energia. A gordura marrom desperta interesse porque está relacionada a mecanismos de produção de calor e ao consumo energético do organismo. Por isso, sua atividade é estudada como parte de pesquisas sobre o funcionamento do metabolismo e o desenvolvimento de doenças associadas ao excesso de peso.

Apesar desse potencial científico, a presença ou a ativação da gordura marrom não deve ser interpretada como sinônimo de emagrecimento. A pesquisa não avaliou a losartana como tratamento para perda de peso, nem estabeleceu uma dose, uma duração de uso ou um perfil de pacientes que poderiam obter esse efeito com segurança.

Dados em humanos ainda são observacionais

Além da análise relacionada aos bloqueadores dos receptores de angiotensina, o estudo examinou retrospectivamente mais de 50 mil pacientes em tratamento contra o câncer. Nessa avaliação, a presença de gordura marrom apareceu associada a uma menor prevalência de doenças cardiovasculares, metabólicas e psiquiátricas.

Essa parte do trabalho, porém, também não comprova uma relação de causa e efeito. Uma associação estatística pode refletir diferentes fatores ligados à saúde dos participantes, e não necessariamente indicar que a gordura marrom tenha evitado essas doenças. O mesmo cuidado se aplica à relação observada entre o uso dos medicamentos e a atividade do tecido adiposo.

O artigo científico foi publicado na revista Nature em 14 de outubro de 2026. A referência pode ser consultada no registro do trabalho na Nature. A combinação entre bases clínicas e modelos animais amplia as possibilidades de investigação, mas não substitui ensaios clínicos controlados em seres humanos.

Losartana continua sendo um anti-hipertensivo

A losartana é utilizada principalmente no tratamento da hipertensão, conforme indicação médica. O novo estudo não muda as recomendações atuais de uso e não sustenta a automedicação ou a utilização do remédio com o objetivo de ativar a gordura marrom, perder peso ou prevenir doenças metabólicas.

Pacientes que já usam losartana não devem interromper o tratamento nem alterar a dose por causa dos resultados. Qualquer mudança deve ser discutida com o profissional responsável, especialmente porque o controle adequado da pressão arterial depende da avaliação individual, do histórico clínico e da resposta ao tratamento.

Os próximos avanços nessa linha de pesquisa dependerão da confirmação dos resultados em humanos e da compreensão dos mecanismos envolvidos. Também será necessário avaliar benefícios, riscos e possíveis interações antes de considerar qualquer aplicação terapêutica relacionada ao tecido adiposo marrom. Por enquanto, o principal valor do estudo está em apontar uma hipótese para novas pesquisas metabólicas, e não em oferecer uma nova finalidade para a losartana.