Leitura, conversa e aprendizado: hábitos que estimulam a cognição na terceira idade – Yuri Silva Portela

Clara Vossen
Por Clara Vossen
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Yuri Silva Portela

Duas pessoas da mesma idade podem apresentar desempenhos cognitivos bastante diferentes, e grande parte dessa diferença decorre do tipo de estímulo mental recebido por cada uma ao longo dos anos. O Dr. Yuri Silva Portela, que é pós-graduado em geriatria, costuma comparar esse cuidado ao de um músculo: sem um uso regular e desafiador, a capacidade de adaptação do cérebro diminui com o tempo, mesmo que não haja um diagnóstico associado a essa perda.

Aprender um idioma, um instrumento musical ou uma habilidade manual desconhecida exige que o cérebro construa novas conexões, o que é diferente de repetir uma atividade já automatizada há anos. Segundo pesquisas voltadas à neuroplasticidade na vida adulta, é esse esforço de adaptação, e não a atividade em si, que produz o efeito protetor mais estudado sobre a cognição ao longo do envelhecimento.

Palavras cruzadas e sudoku, populares como exercício mental, tendem a treinar principalmente a habilidade específica de resolvê-los, sem gerar o mesmo desafio de adaptação proporcionado por uma habilidade totalmente nova. A seguir, confira outras formas de estímulo que, somadas a essa primeira, ajudam a manter o cérebro ativo durante toda a terceira idade.

Manter leitura e conversas complexas

Ler regularmente, especialmente textos que exigem concentração sustentada por períodos mais longos, mantém ativas redes cerebrais relacionadas a linguagem, memória e raciocínio lógico. Diferente de aprender uma habilidade nova do zero, essa manutenção não exige domínio técnico algum, apenas consistência na prática ao longo das semanas.

Conversas que exigem argumentar, defender um ponto de vista ou acompanhar um raciocínio elaborado cumprem função semelhante à leitura, ativando processos de linguagem e memória de trabalho de forma simultânea e quase imperceptível. Discutir notícias, participar de um clube do livro ou simplesmente manter diálogos mais longos com outras pessoas oferece esse estímulo sem depender de material específico ou de um ambiente formal preparado para isso.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Segundo Yuri Silva Portela, essa acessibilidade é o que diferencia leitura e conversa das demais estratégias: qualquer pessoa já possui, em algum grau, as condições para praticá-las, bastando ajustar a frequência e a profundidade do que é lido ou discutido no dia a dia.

Jogos de cartas e tabuleiro promovem interação social e proteção cognitiva

A dança, os esportes com regras definidas e os jogos que envolvem estratégia unem a coordenação motora e o planejamento cognitivo em uma única atividade, produzindo um estímulo duplo que nenhuma das duas dimensões trabalhadas separadamente consegue igualar. Enquanto uma partida de xadrez exercita o raciocínio e uma aula de dança exercita o corpo, a combinação das duas coisas em um único movimento potencializa os efeitos de ambas.

Jogos de cartas ou de tabuleiro em grupo acrescentam um terceiro elemento à equação: a interação social, reconhecida como fator de proteção cognitiva, independentemente do conteúdo específico do jogo escolhido pelos participantes. O doutor Yuri Silva Portela costuma citar esse tipo de encontro como exemplo de estímulo que raramente parece exercício, justamente por acontecer dentro de um contexto social espontâneo e prazeroso.

Regularidade importa mais que qualquer atividade isolada

Nenhuma dessas estratégias substitui o acompanhamento médico diante de sinais relevantes de declínio cognitivo, como esquecimentos frequentes que interfiram em tarefas do dia a dia. Elas funcionam como manutenção e proteção, não como tratamento, e seus efeitos dependem da constância ao longo de meses e anos, não de sessões isoladas e espaçadas no calendário.

Para o Dr. Yuri Silva Portela, o mais importante ao escolher uma atividade não é identificar qual é tecnicamente superior, mas sim definir qual a pessoa realmente vai sustentar com regularidade. Um estímulo mantido ao longo do tempo supera qualquer exercício perfeito realizado uma única vez e depois abandonado.