Um estudo liderado por pesquisadores da Stanford Medicine indica que o levetiracetam, medicamento usado principalmente no controle de convulsões, pode interferir no crescimento de um dos tumores cerebrais mais agressivos da infância. Os resultados foram observados em modelos experimentais e em uma análise retrospectiva de pacientes pediátricos com glioma difuso de linha média, um tipo de câncer que pode atingir o tronco cerebral, o tálamo e a medula espinhal.
Publicado em 17 de setembro de 2026 na revista Nature Medicine, o trabalho ainda não comprova o levetiracetam como tratamento contra o câncer. A pesquisa sugere uma possibilidade terapêutica que precisa ser avaliada em ensaios clínicos específicos antes de qualquer mudança na prática médica.
Pesquisa combina experimentos e dados de pacientes
Os cientistas investigaram como as conexões entre neurônios saudáveis e células tumorais podem influenciar a evolução do glioma difuso de linha média. Segundo a Stanford Medicine, os experimentos indicaram que o levetiracetam bloqueou sinais mediados por sinapses GABAérgicas, estruturas responsáveis pela comunicação entre células nervosas.
Em modelos experimentais, a interrupção desses sinais foi associada à redução do crescimento dos tumores. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que o tecido nervoso não atua apenas como um ambiente passivo para o câncer: a atividade elétrica entre neurônios e células malignas pode contribuir para a progressão da doença em determinados contextos biológicos.
Além dos experimentos, a equipe analisou registros de 218 pacientes pediátricos tratados em dois centros acadêmicos. Nessa avaliação, o uso do levetiracetam foi associado a maior sobrevida entre crianças com glioma difuso de linha média. A associação não foi identificada no grupo de pacientes com gliomas de alto grau localizados nos hemisférios cerebrais, o que reforça a possibilidade de que o efeito dependa do tipo e da localização do tumor.
Glioma difuso de linha média tem prognóstico reservado
Os gliomas difusos de linha média são tumores que se desenvolvem em regiões centrais do sistema nervoso. Em crianças, podem comprometer áreas responsáveis por funções neurológicas essenciais e apresentam opções terapêuticas limitadas. A doença afeta aproximadamente 300 a 400 crianças por ano nos Estados Unidos e tem sobrevida em cinco anos próxima de 1%, de acordo com a divulgação institucional da Stanford Medicine.
A localização desses tumores também dificulta procedimentos cirúrgicos amplos. Por isso, a busca por alternativas que possam ser combinadas aos tratamentos disponíveis é considerada uma frente relevante na pesquisa em oncologia pediátrica. O estudo amplia essa investigação ao avaliar a comunicação elétrica entre o cérebro e as células tumorais, uma área relacionada à neurobiologia do câncer.
Resultados ainda não autorizam uso contra o câncer
Apesar do resultado promissor, o trabalho tem limitações importantes. A análise clínica foi retrospectiva, ou seja, examinou informações de pacientes já tratados, sem a estrutura de um ensaio clínico randomizado capaz de estabelecer uma relação de causa e efeito. Já os testes sobre a ação antitumoral foram realizados em modelos experimentais, e não como uma demonstração definitiva de eficácia em crianças.
Também não é possível concluir, com base nesse estudo, que o levetiracetam possa substituir terapias atualmente utilizadas ou que deva ser prescrito para combater tumores cerebrais. O medicamento continua associado ao controle de convulsões, e qualquer uso fora das indicações estabelecidas precisa ser discutido com uma equipe especializada, especialmente no caso de pacientes pediátricos.
De acordo com os pesquisadores, a próxima etapa é preparar ensaios clínicos para avaliar diretamente o medicamento em pessoas com glioma difuso de linha média. Esses estudos deverão esclarecer se o efeito observado nos modelos experimentais se repete em pacientes, quais crianças poderiam se beneficiar e como o levetiracetam poderia ser integrado ao cuidado oncológico.
O registro bibliográfico do trabalho também está disponível no PubMed. Até que novas evidências sejam produzidas, os achados devem ser interpretados como uma sinalização inicial sobre o potencial de reaproveitamento de um medicamento conhecido, e não como uma terapia comprovada para o câncer infantil.

