O uso prolongado de monitores contínuos de glicose foi associado a um melhor controle do diabetes tipo 2 e à redução de um marcador relacionado à lesão renal em um estudo publicado em 7 de outubro de 2026 no JAMA Network Open. A pesquisa acompanhou 25.648 adultos com diabetes tipo 2 considerados de alto risco, durante um período de três anos.
Entre os participantes, 2.771 iniciaram o uso de um dispositivo de monitoramento contínuo em tempo real. Os outros 22.877 formaram o grupo de comparação. Ao final do acompanhamento, as pessoas que utilizaram os sensores apresentaram, em média, uma hemoglobina glicada cerca de 0,8 ponto percentual menor do que a observada no grupo que não começou a usar a tecnologia.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Kaiser Permanente e analisou dados de registros eletrônicos de saúde. Segundo o artigo publicado pelo JAMA Network Open, a estratégia estatística procurou aproximar as condições de uma comparação clínica entre pacientes semelhantes, embora o estudo não tenha sido um ensaio clínico randomizado.
O que os monitores contínuos de glicose acompanham
Os monitores contínuos de glicose são dispositivos que utilizam um sensor aplicado ao corpo para acompanhar as variações da glicose ao longo do tempo. Em vez de depender apenas de medições pontuais, o paciente e a equipe de saúde podem observar a evolução dos níveis de açúcar no sangue durante diferentes períodos do dia, incluindo depois das refeições e durante o sono.
Esse acompanhamento pode ajudar na avaliação do controle glicêmico e na identificação de padrões que não aparecem em uma medição isolada. A hemoglobina glicada, por sua vez, é um exame laboratorial usado para estimar a exposição média à glicose nos meses anteriores. No estudo, a diferença favorável entre os grupos permaneceu ao longo dos três anos de observação.
Resultado renal foi observado em marcador precoce
Além da hemoglobina glicada, os pesquisadores avaliaram a relação albumina-creatinina na urina. A presença de albumina em maior quantidade pode indicar perda de proteínas pelos rins e funcionar como um sinal precoce de comprometimento renal em pessoas com diabetes. Após o início do monitoramento contínuo, houve redução posterior desse indicador entre os usuários dos dispositivos.
O achado, no entanto, precisa ser interpretado com cautela. A pesquisa não identificou melhora significativa na taxa de filtração glomerular, uma medida mais direta da capacidade dos rins de filtrar o sangue. Por isso, os resultados apontam uma associação entre o uso do monitor e melhora de um marcador de lesão renal, mas não comprovam que a tecnologia impeça ou retarde a progressão da doença renal diabética.
Em comunicado sobre a pesquisa, a Divisão de Pesquisa da Kaiser Permanente destacou a relevância dos resultados para pessoas com diabetes tipo 2 que apresentam maior risco de complicações. A instituição informa que aproximadamente 30% das pessoas com essa forma da doença desenvolvem doença renal crônica ao longo da vida.
Estudo não substitui tratamento médico
Os dados não significam que o monitor contínuo de glicose deva substituir medicamentos, consultas, exames laboratoriais ou mudanças de estilo de vida. A indicação do dispositivo depende da avaliação clínica individual, do perfil do paciente e da disponibilidade da tecnologia. O sensor também não elimina a necessidade de interpretar os resultados com apoio de profissionais de saúde.
Como os participantes não foram distribuídos aleatoriamente para usar ou não o equipamento, fatores relacionados ao acesso ao cuidado, ao comportamento e às características clínicas podem ter influenciado os resultados. Mesmo com os ajustes realizados pelos pesquisadores, esse tipo de limitação impede afirmar que toda a diferença observada tenha sido causada exclusivamente pelo monitoramento.
Os autores defendem a realização de ensaios clínicos randomizados e de longo prazo para confirmar se a melhora sustentada da hemoglobina glicada e a redução da albuminúria se traduzem em proteção efetiva dos rins. Até que novas evidências estejam disponíveis, o estudo reforça o possível papel do monitoramento contínuo como ferramenta complementar no acompanhamento de adultos com diabetes tipo 2 de alto risco.

